segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Poemas para um corpo mascarado I

                                                          A Esfinge

           (adaptação do texto publicado no livro Faces rituais da poesia- Confraria do Vento,2010)



      
A Esfinge  e A balada da  Prisão de Reading – poemas para um corpo mascarado



                                                                       Stella Maria Ferreira



“(...)Pois quem vive mais de uma vida deve

  Morrer também mais de uma morte.” .



         Projetando-se como mergulhador délio, em luta contra a insaciabilidade, do prazer que durou os instantes de pouco mais de quarenta anos, Oscar Wilde fez da vida uma experiência literária para que a eternidade estivesse ao alcance do corpo. Operou um auto-enfeitiçamento e confundiu àqueles a quem a percepção sensorial inibira qualquer manifestação criativa. Nesta circunvolução, como autor e herói, exercitou venturas e desventuras e, purificado do conformismo, encontrou-se com a dor de uma vida inteira enquanto esteve na prisão.Em sua obra poética conciliou a improvisação, a oportunidade, a superioridade do inconsciente em um domínio absoluto da técnica, sem abdicar, contudo, da surpresa, reservada para o roteiro. O vigor de sua inteligência deu a seus textos a pureza almejada pelos decadentistas.Percebeu que cada ato de vida escolhido importava e que o não vivido permaneceria dentro dele, em seu inconsciente por toda uma eternidade. Tornou-se um porque passou pelas cinzas, não sofreu pelo que não viveu. Esta adesão à força da vida, ativa e não passiva, fortificou sua presença de homem moderno e o fez crer que algo se introduziria em sua obra: “(...) uma plena memória verbal, cadências mais ricas, efeitos mais curiosos, uma ordem arquitetônica mais simples ou, quando menos, certa qualidade estética.” (WILDE, 2003, p.1413).

            O inconsciente ditava rapidamente e a trilha se tornava cada vez mais iluminada e já não havia nada a temer. A cada volta, Wilde sabia que subiam, ele e o leitor, um degrau de cada vez. Ele fez de todos, cúmplices de uma trama desconhecida para ambos. Agarrou-lhes a mão para puxá-los – e também a si – em direção ao centro dos sonhos mais secretos, aos desejos inconfessáveis. Revelação dura demais; veredicto unânime: condenado por apontar o papel estético desempenhado por todos. Na prisão, as vozes não silenciam, a mão parece cansada, mas a narrativa não pára. Dois anos depois, na saída, pinga as reticências de um fim que quer ser começo com uma balada. Sai de cena. Os leitores, no entanto, não deixam que as cortinas sejam cerradas. Saíra mesmo de cena? Não, multiplicara-se pelos pontos deixados na página.

O poema A esfinge foi por ele iniciado na época de Oxford e terminado em Paris em 1883  (tendo a publicação apenas em 1894). O poema traz o embrionário sentimento do efeito avassalador que teria mais tarde Á Rebours de Huysmans. Oscar Wilde tinha um forte sentimento por esfinges e, como a vida imita a arte, Wilde conheceria mais tarde, Mrs Ernest Leverson, “a young woman who hid intelligence and a tender heart under a frivolous manner(...), a link with the world of Proust: her sister and brother-in-law(...)were great friends of Proust(...)her wit conditioned her ideally to respond to Wilde’s light-heartedness, his particular form of gaiety iluminated by genius” (JULLIAN,1971,p.169). De Ada – e para ela -, diz Wilde: “ You are one of those who, in art, are always, by intuition, behind the scenes, so you see how natural art is(...)” (JULLIAN,1971,p.169) . E ela diz dele: “I had been told that he was rather like a giant with the wings of a Brazilian butterfly and was not disappointed. But I thought him far more like a Roman Emperor who should have lived at the Pavillion at Brighton with George IV.”  (JULLIAN,1971,p.170)

         A trama se insinua no ritmo do nictêmero (unidade indicativa de 24h), com a ‘presença’ de dois personagens. Meio humana, meio animal – dotada da faculdade de pensar (JULIAN, 1971, p.165) “Intangível e quieta não se ergue nem faz o menor movimento” (WILDE, 2003,p.958), mas vem , porém, aninhar-se junto a um estudante. Envolto no profundo e convulsivo silêncio da noite, o jovem é enfeitiçado pelo olhar – de fantásticos luares -, o sorriso enigmático e a fisionomia irradiando tranqüilidade. Inebriado,  ele faz o convite: “Aproxima-te, encantadora e lânguida Esfinge minha, vem colocar tua cabeça sobre meu peito e deixa-me passar uma mão acariciadora por teu peito e examinar teu corpo mosqueado como o de um lince.” (WILDE, 2003,p. 958). Com a implícita promessa de um ideal – penetrar o desconhecido -, ávido por decifrar segredos, experimentar mais do que ‘conhecer’, o jovem é devorado por dentro pela criatura: “(...)vem estirar-te a meus pés, Esfinge fantástica, e conta-me tuas recordações(...)” (WILDE, 2003,p.959), e é levado a lugares distantes em tempos remotos: “mil séculos lentos te pertencem quando eu, em troca, vi apenas vinte estios despojarem-se de sua verde libré para vestir a libré multicolorida do outono...” (WILDE, 2003,p.958).

         A cabeça feminina num corpo felino com garras que prendem e ferem cruelmente levam o protagonista a uma ‘viagem’ interior – sem movimento externo (bem a gosto de Des Esseintes) – doce martírio. Só o medo e o terror poderiam, com ela, produzir o prazer que o jovem estava por experimentar. Horror e deleite. O paradoxo se instala. A excepcional ação dos órgãos dos sentidos permitiu que ele interagisse com outros mundos e um excepcional aperfeiçoamento virá ainda. O jovem é outros. E se assim é, o leitor de A Esfinge é também ‘arrastado’ para essa vida ‘mais verdadeira’ que Wilde com tal facilidade verbal propõe.

         O jovem ansiava por tornar-se decifrador da linguagem secreta do universo. Que tivesse ele as respostas agora! O pacto é silencioso, mas ele sabe que ao chamar a figura alada, estaria a ela entregando algo de si. Aceita, sem delongas.  A peregrinação virtual o leva a lugares e tempos remotos: “(...)Fala-me do labirinto que servia de estábulo ao touro de dupla forma(...)” (WILDE, 2003,p.959). O sutil sorriso da figura instiga a curiosidade do jovem quanto a seus amores. Teria a figura amado ou só existira para provocar fortes e devastadoras paixões? Teria esperado que todos os véus deixassem de ser para ela mistério para que dominasse os segredos dos homens? O silêncio aterrador leva o protagonista a um clímax: “(...)Vai-te daqui; estou cansado de teus gestos de languidez, cansado de teu olhar sempre fixo de tua sonolenta magnificência...” (WILDE, 2003,p.964). Julgando fazer o percurso dela, na verdade, enreda-se nas teias de sua mente.

         As indagações do jovem vão, assim, da fascinação (“Como é sutil teu sorriso! Será que não amaste a ninguém?”-WILDE, 2003, p.961) até o súbito terror (porque se chegasse a decifrar os segredos da esfinge um fim trágico poderia encontrá-lo). Declara-se farto do hálito “pesado e horrível”, dos olhos que são “como luas fantásticas que tremem em um lago de águas paradas”, da língua que “ é como uma serpente escarlate que baila ao som de árias fantasmais(...)”,  sente o pulso deste ser que “ bate em melodias envenenadas” e vê na negra boca “ o buraco que deixa uma tocha ou umas brasas sobre uns tapetes sarracenos(...)Vai-te daqui, repugnante mistério(...)” (WILDE, 2003,p. 964/965). A presença feminina, a rigor, exaspera. De início encantadora, capaz de enlouquecer com um olhar: “(...)Sua face era como o mosto que enche uma cuba de vinho novo. Os mares nada poderiam acrescentar à perfeição de seus olhos de safira(...)” (WILDE, 2003,p.961); mostra-se fatal,  cujo prazer não se encontra na morte dos amantes, mas no domínio sobre suas vidas: “Bem sei que teus amantes não morreram. Voltaram a levantar-se. Ouvirão tua voz. Agitarão ruidosamente seus címbalos. Regozijar-se-ão(...)” (WILDE, 2003,p.963). O súbito temor de se ver para sempre coberto por suas asas e inebriado por seu perfume o desespera.

         O poema traz a adormecida Salomé decadentista. O jovem parece enfastiado do real, quer sentir mais do que conhecer e à dama do crepúsculo interessa sobremaneira este verde coração. A força feminina, que mergulha sem temor neste mundo dominado pela razão masculina, impulsiona o jovem. A Esfinge apresenta a lição ensinada ao filho de Dédalo: o desafio por si só, a tentativa de desprender-se de um corpo limitado no espaço e no tempo é a força motriz do indivíduo. A idéia lançada no ar é mais uma vez feminina. O estudante não sabe se trazida pela fugidia “Fúria de cabeleira de serpentes, recém saída do Inferno” (WILDE, 2003,p.964), ou por um fantasma criminoso;e ainda mais adiante: “Tornas aquilo em que creio uma estúpida fraude, despertas obscenos sonhos de vida sensual(...)” (WILDE, 2003,p.965). Impacto revelador da escuta de um não canto, de uma não voz desta serpente para quem ele se dirige assim,  “despertas em mim bestiais sensações, fazes de mim aquilo que eu não quereria ser.” (WILDE, 2003,p.965). Semelhança com o jovem Dorian Gray encantado pela voz de Lorde Henry e rendido a sua voz interior. Contagem de anos não cronológica que faria dele, daí em diante, um indivíduo diferente. O ‘encontro’ com seus desejos ocultos fez com que envelhecesse, tal qual o retrato – só que não por fora, mas por dentro.

A experiência enriquecedora faz com o que o jovem respire o ar robusto de que nos fala Nietzsche em Why I am so wise:



“He who knows how to breathe the air of my writings knows that it is an air of the heights, a robust air. One has to be made for it, otherwise there is no small danger one will catch a cold. The ice is near, the solitude is terrible – but how peacefully all things lie in the light! How freely one breathes! How much one feels beneath one!”.                 



O calor evocado pela figura do deserto contrasta com o gelo aterrador da vivência solitária dos muitos mundos. A visão que se tem a partir do poema é a da confusão do infinito labirinto sem muros: o deserto, de onde nunca sairá, tão logo o olfato absorva o odor dessa desconfortável liberdade. A princípio parece-lhe retirada a paz, perceberá, certamente, mais tarde, que a inquietude será de agora em diante sua fiel companheira e a única que fará com que sua personalidade se desenvolva.

         Mais uma vez o sombrio apresenta-se como esperança de revelação. A nebulosidade, a incerteza trazidas pela figura da Esfinge é traduzida como descoberta e o estudante libera seus ‘outros’, permitindo-se uma vivência mais completa, mesmo no espaço reduzido de seu quarto . A treva que é luz seria importante mote decadentista, assim como os temas exóticos. A estranha gata achava-se estendida sobre um tapete chinês e leva o estudante, como pelo ar, a visitas pelas terras orientais, observando faraós, deuses assírios,  sacerdotes em templos ricamente decorados, mercadores em navios multicoloridos, beduínos, caravanas errante de negros de ar solene. Mundos são desvelados para ele e nele.

         Fica-nos a dúvida sobre o real efeito propiciador das divagações do estudante: haveria mesmo esta figura ali com ele, estátua, imóvel, ou já isto também seria resultado das leituras noturnas que fazia? Se considerássemos esta última opção, Wilde estaria mais uma vez atestando o valor da leitura para a imaginação e a figura alada seria mera projeção do desejo de liberdade do jovem. Teria mesmo tal figura participado do episódio ou seria semente da musa decadentista, provocadora de loucos amores, sedutora que enfeitiça duros ouvidos e reconstrói companheiros despedaçados, despertando paixões até em pedras insensíveis (cf.WILDE, 2003, p.963) . A movimentação interna é tal que se sobrepõe à imobilidade externa. Mais uma vez, lembramos À Rebours com Des Esseintes ‘viajando’ para Londres, sentado em um café à espera do trem. Tamanha experimentação anulou sua efetiva ida a capital inglesa; seu desejo estava satisfeito, por isso, pode retornar à casa. Esta virtualidade já atestaria a opção pela imobilidade ao invés da ação. O movimento do corpo estava associado por demais a produção, ao lucro e isso só se mostrava prejudicial ao exercício do pensamento, que precisava do ócio. A esfinge, assim, deitada, preguiçosa, poderia ser símbolo propulsor de que necessitava o estudante para ser o que queria.

         O resultado da intensa noite para o estudante não foi de tranqüilidade. Havia agora a iminência de tomada de atitude. Não poderia ignorar a descoberta das insatisfações de sua vida. Seu inconsciente balançara as correntes da consciência reguladora. Teria que fazer agora sua escolha, a aurora já despontava “em torno dos campanários cinzentos que ostentam um quadrante dourado, e a chuva corre sobre cada vitral talhado como um diamante, e suas lágrimas empanam o dia já descolorido.” (WILDE, 2003,p.964). A ação é sempre a opção mais fácil por ser a mais contínua dizia Wilde em O crítico como artista; é refúgio das pessoas submetidas; é cegueira que está em desacordo com a finalidade primeira da vida; por fim, é a base da falta de imaginação. As muitas vozes silenciam de súbito, era hora da oferta final – uma existência modificada, pronta para a ação desmedida dos sentidos.

         No final, a ação da consciência parece retrai-lo. Acreditamos, no entanto, que a experiência sensorial foi de tamanha intensidade que deixara marcas doloridas em seu corpo, até então intocado pela força artística. A ‘viagem’por estes mundos de um passado que parecia ser seu presente, da vida de outros que não era mais do que a sua vida não vivida, emboscada no inconsciente exigiam uma resposta. Como a esfinge, ele viveria eternamente. A questão era : viveria repetido sentimento de remorso ou repetido gozo pela realização de toda uma existência de sonho. O temor deste novo era  normal. A serenidade da acomodação ainda exercia fascínio. No entanto, o poder do texto já invadira definitivamente sua alma. A imaginação exigia uma entrega e ele sabia que não poderia voltar atrás. Não porque lhe seria proibido, mas porque lhe seria impossível, após experimentar tal liberdade . Descolara-se das asas da esfinge, caíra no abismo para alçar o próprio vôo. Disse Wilde em Uma mulher sem importância que em uma mulher que revela sua idade, nunca se deveria confiar porque seria capaz de contar-lhe qualquer coisa. Pois bem, ao perambular com o estudante por todas as suas idades, revela a ele o contra-senso, a rebeldia. O ‘bom-senso’ era ‘privilégio’ do mundo masculino. A escolha do jovem já fora feita. Tornara-se cego, surdo e mudo para este real insatisfatório e estrangeiro, cabeça perdida, digere a vida como a um livro.

         Ao hálito poético da Esfinge se une o som metálico de correntes - a música incidental que embala o poema publicado em 1898 – e que não parou desde então de ser reimpresso e traduzido na maioria das línguas do mundo. 

 E este é o nosso próximo capítulo...


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Na minha escrivaninha

                  Alberto Manguel destaca em Á mesa com o Chapeleiro Maluco a observação de Chesterton de que "estão enterradas em cada livro comum as cinco ou seis palavras a partir das quais realmente todo o restante será escrito" e completa dizendo que o leitor pode encontrá-las nos livros que ama.
                  A curiosa afirmativa levou-me a alguns dos textos favoritos enfileirados sobre a escrivaninha. Audaciosamente diria as palavras wildianas de O retrato de Dorian Gray  - escombro, modernidade, máscara, juventude, inconsciência. Em Persuasão, de Jane Austen - preconceito, ilusão, superação, amor, fidelidade. No Quixote de Cervantes - sonho, ficção, plenitude, ousadia, lealdade.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Converso com Shakespeare


             "WHAT'S   IN   A   NAME?       A  ROSE  BY ANY  OTHER   NAME   WOULD   SMELL
              AS  SWEET."   (in  Romeo and Juliet by William Shakespeare)



                O que há em um nome? Acaso uma rosa se outro nome tivesse teria perfume menos doce?


               Os títulos, posições, cargos, o que significam senão serviço; meio pelo qual o ser humano possa crescer e desenvolver todas as suas potencialidades?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Carta para quem ainda não sou


             Prezado (não sei como nomear-te se ainda não és).

             Venho por meio desta chamar-te à ação. Ora,o que estás a pensar? O tempo urge. A arte espera, ansiosa. Tens tanto a oferecer e ficas a oprimir teu espírito com medos e inseguranças. Parta agora. Vista a capa da inspiração; calça as sandálias da imaginação; abra os olhos para a irrealidade que cerca os que,com a coragem de que foram dotados em sua essência,correm celeremente ao encontro de sua vocação. És artista. Não tens escolha.Teu destino aí está, esperando teu abraço carinhoso e tua aceitação resignada. Corra em direção ao canto das sereias e deixa-te seduzir. Descansa. Tens negado durante tempo longo demais  alegria a teu espírito cansado. Não seria um alívio fechar-se à intolerância, à tristeza que, por vezes, te cerca e abrir-se definitivamente à vida artística a que foste chamado? O mundo, por certo, obteria proveito e vantagem do brilho que poderias imprimir. Escreva. Não te prives do infinito.
             Aguardo as cintilações de tua próxima cena. A cortina se abre para ti mais vez.
             Aproveite.
             Aguardo seu contra senso,
             Teu amigo fiel (teu eu)

sábado, 11 de agosto de 2012

A minha leitura

                            "(...)imprimir o texto (na expressão de Cícero que Santo Agostinho gostava de citar)"nas tabuletas de cera da memória". Ao recordar o texto,ao trazer à mente um livro que um  dia teve nas mãos, esse leitor pode tornar-se o livro, no qual ele e os outros podem ler.". (Uma história da leitura, de Alberto Manguel-p. 75)


                             O exercício da leitura,o passo dos olhos, sendo reeditado na mente pela memória torna o meu corpo escrita que se quer também eterna. Cada curva, cada traço, cada ruga ditados pelas regras da arte.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

nas ruas do Porto V

                        Desço a Rua Mouzinho Silveira e,entrando na Rua Infante D. Henrique, abre-se à vista a Praça da Ribeira - região colorida e festeira. O passo é fluido; a maciez do solo, com o Rio Douro como cenário, torna a caminhada imensamente prazerosa. é grande o ir e vir de pessoas.
                        Sento-me à mesa de um dos inúmeros restaurantes.  O espírito receptivo favorece uma pausa no tempo. No meu tempo. O som das gaivotas, meus pés assentados num chão quase flutuante,os olhos fechados. Uma alegria serena me invade:  tudo realmente vale a pena se alma não é pequena.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Wilde,leitor


O DESAFIO DO CAMINHO : no jogo da leitura a tecitura     da trama


                           (parte adaptada da tese)



         Máscara ainda a ser explorada: a de Wilde leitor. A partir da leitura dos clássicos, banqueteando-se de sua poesia, percebeu, ouviu com arte (hear with art) – usou do coração (HEART) nas letras, estas partes desmembradas do seu e de outros corpos a serem decifrados .
          Procuramos nos inserir na biblioteca wildiana – para nós um espaço imaginário. Desde criança exposto a tradição irlandesa dos contadores de histórias, jovem participando das reuniões intelectuais promovidas por sua mãe – poetisa reconhecida e extremamente respeitada -, até a recusa das brincadeiras com outras crianças, na escola,  para se deliciar com as páginas de um livro, ousamos desenhar a força que a escolha já operava em sua vida. Criando e recriando sentidos e direções, Wilde destacava-se dos outros da mesma idade, o que fez com que a mãe por várias vezes ao comentar sobre os filhos dissesse que Will era ótimo, mas Oscar estava definitivamente destinado ao sucesso.

 A máscara de leitor da qual haveria de se servir prescindiria até do livro em si. Por meio dela, por trás dela, ‘brincaria’ de um jogo que aos poucos se tornaria perigoso – o de se ver nas páginas, ou como páginas.

Como nas reproduções dos antigos, Wilde foi flagrado inúmeras vezes com um livro em mãos. Fixou a idéia de que cada livro continha também a história do leitor e buscou vorazmente interpretar o mundo à sua volta. Cada livro que leu o pressupôs; cada página virada remetia-o circularmente à primeira página lembrando- o de que nunca deveria parar de fazer perguntas, já que não poderia haver a última palavra em leitura. A textura do papel, seu odor, tudo eram vozes que o faziam recordar-se “com memória alheia”, como diz Ricardo Piglia em seu Borges: a arte de narrar (SCHWARTZ,2001, p.33). Duplica o mistério, entrega-se à trilha da leitura. . Reconheceu o caráter provisório da leitura, sempre a completar-se, sempre a refazer-se. Cada ‘ponto final’ era para ele uma vírgula – pausa breve, rápido movimento de expiração para que retornasse à inspiração. Parece-nos ver o cuidado com que passava as folhas de cada livro, meditando, ruminando sobre o lido, como que adivinhando tramas e desenlaces e, possivelmente, sintetizando uns, estendendo outros. Fácil imaginar o vôo de seu pensamento ao ser apresentado a cada personagem, a cada nova idéia, a cada proposta para um modo de vida; demorando-se na página, acariciando e sendo acariciado.

         A palavra plot, em inglês enredo, é também terra destinada à sepultura. Ora, o enredo para uma história não se poderia deixar sepultar em um final, pois deveria ser continuação para outras tantas. Ainda assim, é sempre morte, assim como evidente vida, para o leitor. Algumas histórias são morte para uma vida acomodada e perspectiva de existência renovada. Ficam as cinzas, como sementes para um corpo novo. Wilde, no entanto, parecia já ir ainda mais além: o enredo perfeito que buscava sepultaria sua presença como veiculador da mensagem artística, para uma vida que era obra e só obra.

Plácido, como um inglês, impulsivo e imaginativo, como um irlandês, sublinhou em cada passagem, plena de força poética, o drama musicado da existência, externando o incontrolável poder das palavras, sempre em vigília, em zelo. Como os olhos no movimento da leitura – da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de baixo para cima – sujeito nômade, na intimidade com as entranhas de outros costumes anexou o passado e o futuro ao presente, sempre em movimento. Acreditando no ato de caminhar como condição essencial para o desenvolvimento do pensamento, Wilde andou por diversos lugares, esculpindo, arquitetando um discurso que, atrelado ao passo, seria trunfo para um triunfo estético. Do apaixonado trabalho com os textos,  tomando das obras o que ofereciam, produziu o efeito concreto e visível da acuidade singular de uma prosa artesanal. Esculturas ainda invisíveis aos olhos se produziam em sua mente e a cada toque imaginário a forma se tornava mais ‘real’.


E assim, distingue-se na cabeça curvada ou no corpo arqueado sobre a folha, o impulso do corredor. Havia muito a apreender, a ruminar para o fim que era a apropriação deste corpo que era escrita também e só.A silhueta se modificava e o efeito de camuflagem começava a invadir o meio em que circulava.

            Considerado o melhor helenista de sua geração, tinha todos os atributos que poderiam gerar atenção: cultura, entusiasmo e um vocabulário invejável. Do lente de Brasenose College, Walter Pater,  Wilde recebeu lancinante influência. As palavras acenando para uma vida vivida no espírito da arte tocaram fundo o jovem, que deixou-se envolver nesse encantado contato com o antigo professor de Oxford.

         Pater foi leitor dos filósofos românticos alemães e grande admirador de Goethe, acreditando que o artista deveria trabalhar para tornar-se uma personalidade completa e rica para daí fazer de sua obra uma inevitável expressão de si; trabalharia, assim, de dentro para fora trazendo à luz sua individualidade . Sua apreciação incomum da beleza sensual na arte e na natureza resultara em uma notável habilidade de transmitir estas impressões na própria escrita. Conseguiu, então, uma ‘elasticidade’ para princípios inflexíveis que o estimulariam a distinções cada vez mais peculiares em busca do sonho maior: “one should construct for oneself an imaginative world – the ‘type’, or purified, ‘rectified’ essence of the real world, a ‘vision’ of the ideal – and live in it.”6. Para o estudioso, este sonho era consolador, mas não o suficiente para mobilizá-lo; não comungava do lado social e humanitário do movimento estético, diferentemente do contemporâneo John Ruskin – emblematicamente falecido também em 1900 -, que proferiu conferências em Oxford entre 1861 e 1878, e ulteriormente, em 1883 e 1884, e de quem Wilde tornou-se fiel discípulo. Ruskin admitia a vida a serviço da beleza como vida a serviço da humanidade. Diz Philippe Julian em Oscar Wilde:



“Many aspects of Victorian England owed their origins to the influence

of Ruskin. For example, at Oxford, buildings such as the Union and the

                                           Museum bear traces of his form of mysticism(...)” .



O eminente professor, em análise sobre sistemas arquitetônicos, apontava o ornamental revolucionário como aquele que não admitiria inferioridade em sua constituição. A arquitetura mostraria-se exortação desta forma. A recorrência da arquitetura para exemplificação – ou materialização - do movimento da literatura será marcante. Daí a menção constante de Nietzsche acerca da construção do pensamento, das curvas e modulações, das nuances e combinações. O esforço, porém, para uma grande edificação intelectual não era grande para Ruskin. Diz ele que uma grande coisa só pode ser feita por um grande homem e este o faz sem esforço algum . Sem contestar o mestre, parece-nos que Wilde não concordaria com a idéia por completo. Um indivíduo que se reconhece como artista da vida – e só assim vendo nele um destino – exigiria de si enorme esforço para que a contradição estivesse sempre a frente para que não sucumbisse a comodidade dos que esqueceram o valor da criação. Wilde sabia que qualquer tremulação faria com que um borrão de tinta manchasse as linhas cuidadosamente preparadas. Mesmo a passos largos, estes deveriam ser firmes o bastante para evitar tropeços. Olhos fixos embaixo, no papel, e pensamento fortemente postos no alto. O cuidado, no entanto, não deveria fazê-lo evitar o confronto com adversários. Estes fortificariam ainda mais seus ideais e fariam com cada vez mais articulasse réplicas imaginárias, acendendo dia-a-dia suas vozes interiores. Em Oxford já travava um combate.

         Da brilhante combinação dos dois mestres, Wilde mostrou-se particularmente interessado em uma re-organização da sociedade que permitisse a ação libertadora da arte; introduzir dúvidas numa era de certezas. Sua visão poética permitiu-lhe a reunião em um mesmo ensaio, já por si uma obra de arte, suas impressões sobre as diversas manifestações artísticas; falaria da arte concretamente ao fazer reviver o pensamento grego somado a agitação da vida moderna. Se, ao agir, o homem moderno se parece com uma marionete, ao falar, ao escrever, seria um poeta. A visão do que se senta e assiste é ilimitada e absoluta e, aqui, nota-se claramente influência de Chuang Tzu*. Se é ilimitada, seus segredos últimos nunca poderão ser revelados point for an ideal . Inegável e talvez desnecessário reafirmar a forte influência de Speranza. A firmeza das posições político-sociais da mãe fizeram de Wilde também um leitor à frente de seu tempo.  A viagem interior estava em progresso e o mundo o chamava; obediente, vai ao encontro dos antigos.

          Em 1875, já agraciado com a bolsa de estudos no Magdalen College, viaja nas férias  para a Itália  com o Prof Mahaffy – antigo mentor, um artista nas palavras vívidas e no silêncio eloqüente e sobre a inesquecível experiência diz em carta à mãe, datada de 24 de junho de 1875:



“(...)Believe me Venice in beauty of architecture and colour is beyond

description. It is the meeting place of the Byzantine and Italian Art –

a city belonging to the East as much as to the West(...)Arrived in Milan

                             in a shower of rain.(about the Cathedral): These moderns  don’t  see

                             that the use of a window  in  a church is to show  a  beautiful massing

                             together  and  blending  of  colour  –  a good  old window has the rich

                             pattern of  a Turkey carpet(...)Milan is a second Paris( ...)” .

                                          

           

(Daí o comentário de João do Rio - no prefácio para a edição de Intenções de Wilde – de que só na cidade-máscara poderia fielmente escrever sobre o esteta irlandês). Parecia reconhecer de imediato as observações de Ruskin sobre a cidade-máscara: sua redundância, sua indomesticabilidade; é grotesca e suave, obstinada e generosa, evocando perturbadora imaginação, perpétua mobilidade, trânsito contínuo. Parecia arrebatado e rendido a essa silenciosa melodia. Tornara-se escritor. Como resultado da excursão, presenteia o público com uma série de poemas de exaltação às imagens – já tão conhecidas pelos lábios incendiários do mestre Ruskin -, que vieram a ser publicados em 1881 sob o título Poemas. O jovem aprendiz despertava um ardor pelos ternos acordes que fariam vibrar as fibras de sua carne. Chama-nos um fragmento de O túmulo de Keats, escrito em Roma em 1877:



“Libertado da injustiça do mundo e de sua dor,
                                                   repousa por fim sob o céu azul de Deus:
             arrebatado da vida, quando a vida e o amor eram novos,
                                                         aqui jaz o mais juvenil dos mártires(...)
                                                          Oh! poeta-pintor de nossa terra inglesa!
      Teu nome foi escrito na água(...)e perdurará(...)” 



Em 1876, a ida à Grécia, berço de uma Antigüidade que privilegiara o culto à beleza, completa o circuito para uma leitura prática do pensamento clássico fazendo uma ‘leitura prática’ para uma trajetória intelectual que ansiava ser singular.A alegria da visita ficou registrada em seu Impression de Voyage:

“O mar tinha a cor de safira e o céu ardia como uma opala acesa;

                                  içamos a vela. O vento soprava com a força do lado dos países

                                  azuis que se estendem para o Oriente.

       Da proa escarpada contemplei, com a mais viva atenção, Zakynthos,

         E cada enseada, as costas de Ítaca, o pico nevado de Licaon e todas as

                                  colinas da Arcádia com suas galas floridas.

          O palpitar da vela contra o mastro, as ondulações que se formavam aos

    lados na água e as do riso das moças na proa; nenhum outro ruído.

       Quando o Ocidente se incendiou e um sol vermelho balançou-se sobre

                                 Os mares, achei-me, por fim, sobre o solo da Grécia!” .

De Platão a Aristóteles, passando por Kant, Hegel, Locke, Hume, Berkeley, Mill e Spencer suas escolhas ilustram a combinação que desejava: antigo e moderno enlaçando as verdades eternas do pensamento clássico e as novas especulações progressistas.  Um êxito vem coroar o ano de 1878: seu poema Ravenna recebe o prêmio Newdigate. Sucesso merecido. Um corpo destinado à pluralidade, mas reprimido na homogeneidade. Corpo fiel seguidor do provocante Baudelaire. Diz de suas Flores do mal em O crítico como artista:



                     “Leia o livro inteiro, deixe que revele à alma um só de seus segredos

                        e sua alma  sentirá   ânsias  de  saber  mais e  se  alimentará  de  mel

                          envenenado e  quererá   arrepender-se   de  estranhos  crimes que  não

                           cometeu  e expiar  terríveis prazeres  que  nunca  conheceu.  E depois,

                         quando   estiver você  fatigado dessas  flores do mal, volva-se  para  as

                         flores  que  crescem  no   Jardim  de   Perdita  e  refresque   sua  fronte

                                         encarolado em  seus cálices  úmidos  de rocio e que sua graça adorável

                                         cure e reanime sua alma(...)”



         A grande obra artística a ser considerada seria a de uma vida devotada às idas e vindas deste corpo viajante sempre às voltas com o infinitoOlha tudo e a ele se revelam diferentes mundos, os que podia ver e os que uma memória encantada desnudava. Se aos olhos até então só era permitido ver o que estavam treinados a ver, admitiu plena atuação das forças imaginativas. Os espaços visitados perderam suas fronteiras geográficas para, unidos, formarem o palco ideal para um super artista, um artista de superação de limites. Uma dança de véus se inicia e Wilde sabia que para nunca terminar, pois recolheria frutos velejando em mares fecundos.

                                              

Escolheu no presente sem fim o tema da sombra, do esquecido, do silêncio, do proibido, do futuro que é passado. Flanêur literário, acentuando a memória como arte, utilizou-se de nomes de lugares na Inglaterra visitados para identificar alguns de seus personagens. Temos, então, com Goring, seu Lorde Goring de Um marido ideal ; e com Worthing, seu John Worthing de A importância de ser prudente . Das margens do Lago Windermere, na Escócia, deu-nos a protagonista de O leque da Sra. Windermere . Leitor apaixonado, escritor louco, promoveu um texto inédito. Wilde repousa suas personagens sobre os efeitos – para alguns – repugnantes do então movimento das cidades. Para seus dândis e suas fortes figuras femininas de comédia, a rua é deleite, invasão de Eros para completar o ciclo de sedução. O texto wildiano permanece atual porque dotado de estupefaciante originalidade de um corpus a ser cumprido.

         A quietude do texto falaria nas atitudes do esteta irlandês, articuladoras de um caminho outro. Sabia que o maior perigo estava no que já não era mais percebido : que o corpo achava-se controlado, ‘despoetizado’. Seu questionamento visava esta serventia. À força de definições, conceitualizações e representações, os indivíduos haviam se enfraquecido. Fez-se conhecer em seus escritos não porque achasse que fosse preciso, mas porque não poderia deixar de fazê-lo. Havia uma ‘urgência’ que o impulsionava a este jogo circular. Mesclando sentimentos, ele-autor ‘confunde’ ele-leitor, cruzando realidade e imaginação – almejando ser caçado. Era preciso uma experiência real com a linguagem: banquetear-se de poesia. Para ele e para o outro. A tradução das novas idéias viria também pelo gesto. Este sustentaria o dito. Para ele e para o outro. O leitor-escritor, como ator, deslocando as medidas, ateando fogo às palavras em uma predileção pelo frasear acentuadamente sedutor, frente a um horizonte em constante deslocamento.



 Ao ler-se como obra artística, realizou-se, foi participante ativo de um mundo cuja dinamicidade encontrava-se equivocadamente unida ao lucro. Assumindo cada minuto como único e não apenas mais um, movimenta-se em espiral ascendente ao, paradoxalmente, mergulhar nas paixões dos sentidos. Protegido pelas mãos trágicas de um destino que não se destacaria pelo acaso, mas pela muda previsão dos oráculos, Renega o corpo como valor de mercado, morre para fora e assume um ritmo interior eletrizante que o faria galgar as alturas da des-preocupação grega e romper com os grilhões da prosa.

 

Ao concluir, fechar, seu único romance, Wilde se abre mais plenamente como texto; torna-se discípulo de si mesmo. Nas nervuras das linhas, na plástica de uma rede original é desafiado a uma insólita aventura. As palavras em relevo, num exercício perspicaz, formam uma teia que levaria o esteta, num movimento singular, a assumir-se como leitura. Leitura provocadora, angustiante, inquieta. Texto morto como informação, mas prenhe de uma nova linguagem. Feita a troca de sua existência com ou pela letra, nomeando-se obra de arte, Wilde morre e renasce numa linguagem de simultaneidade.  Wilde trouxe ao ar um aroma estonteante, de confusão. Fusão de harmonia e caos. O que Borges, menino, temia acontecer durante a noite quando fechava um livro- que as letras se embaralhassem -, Wilde fez com tranqüilidade e destreza. Embaralhou-se. Preferiu o risco, a incerteza das várias leituras para uma obra do que a vida corrente de cidadão comum. Trocista, inocente, sarcástico, bondoso, malévolo, abriu-se a todas as máscaras permitidas pela escritura.




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* Citado no artigo Um sábio chinês, de 1890.

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