terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O outro

Note:
Estou só
Anote o mote:
A solidão me move.
Sorte?

Encontro o outro
Está só
Anote:
Sua solidão me completa.
Sorte!
Mudo de mote, anote.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Com a pessoa de Pessoa

Ode marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Na memória da retina

Guardamos memórias em fotos, cartas, objetos, mas, o tempo, este inexorável amigo, corrói, deteriora. As retinas, no entanto, vêm em socorro e resgata - às vezes, com custo - lembranças queridas e trazem sabores à boca, perfumes, ao nariz, sorrisos, toques à mente, fazendo-nos reviver instantes como se os ponteiros do relógio combinassem uma pausa restauradora.
Na memória das minhas retinas, tenho de volta a gargalhada de minha mãe em nossa última viagem. A foto, perdida. O som, a efusão do sentimento daquele dia ainda fresco no fechar dos olhos. Acho que prefiro assim. O histórico destas lembranças armazenado no disco rígido da mente amorosa vai comigo para onde eu for. Para sempre.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Para hoje, Manoel de Barros, sempre

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Missing Wilde

Há cento e dezesseis anos, morria Oscar Wilde, deixando um legado que ultrapassou as páginas escritas. Um corpo que foi genuinamente corpus ficcionalizou a existência inaugurando uma nova época para a Arte.
Oscar Wilde surpreendeu com a inovação da vida como verdadeira obra artística. São ainda inúmeros os textos que buscam dar conta de episódios e detalhes que poderiam ou não ser verídicos. O esteta, por certo, sorri. Real ou ficção? Como diria o trocista: o que importa? Vivemos inúmeras vidas na imaginação; imaginamos diálogos e relacionamentos na mente
Aos amigos permitia que o chamassem Oscar.
Os anos de pesquisa sobre a inusitada obra de sua vida me dão a ousadia de hoje dizer baixinho: Saudades, Oscar!

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fim

. Fim
Começo hoje um novo capítulo. Mas, só se pode começar se algo terminou, não? Pelo menos, se algo terminou em nós. Pois bem...Terminou em mim o medo do sucesso, do insucesso; o medo de estar só, o medo de nunca estar só; o medo de  acomodar, o medo de mudar; o medo de morrer, o medo de viver; o medo de sair, o medo de ficar...
. Fim
Sem medos. Com a fé que me move, remove, comove, pressiona e impulsiona.

Capítulo 1...

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Do que fui

Do que fui restou lição. O que não voltar a dizer, o que não se deve perder, da rapidez do tempo, de quanto avançar, de quanto recuar, do que é ser grande, do que é ser falho.
Cresci e virei menina: que pede ajuda, que volta atrás, que se rende, que abraça com força, que não desiste.
Do mundo espero pouco. Prefiro doar. Das pessoas a minha volta, não cobro, perdoo, socorro; cedo a vez sem escusa. Ganho mais do que perco. Lição de tolerância, lição ultrapassagem de mim.

Qual sua personagem favorita? II

O Rouxinol... O Rouxinol e a Rosa é um adorável conto infantil do querido Oscar Wilde. O pássaro tão cantado pelos poetas personifica um ve...