segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Wilde por ele mesmo



              "Music...creates for one a past of which one has been ignorant, and fills one with a sense of sorrows that have been hidden from one's tears".



                    A musicalidade dos textos de Wilde (em alguns mais do que em outros, vide,por exemplo os contos infantis e Salomé) trazem à tona sentimentos primevos esquecidos; aquela alegria infantil de apenas ser, sem as preocupações adultas de como parecer. As lágrimas que surgem tímidas  ou por vezes abundantes lembram-nos do fim maravilhoso da arte -  fazer-nos voltar ao que somos.

sábado, 4 de agosto de 2012

As ruas do Porto IV

                 Com uma ansiedade quase infantil, chego à Rua das Carmelitas e aperto o passo. Ali, o chão de pedras sustenta uma das livrarias mais tradicionais do mundo - a Lello. Andar por entre os milhares de livros alinhados nas estantes ou formando inúmeras pilhas pelo chão traz uma emoção indescritível. O odor é, por vezes, sufocante, tamanha a bagagem histórica que traz. Corro os olhos, encantada. Ainda há muito o que ler e aprender. Tenho em mim, também, Pessoa, todos os sonhos do mundo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Converso com Proust

                O fim. Poucas palavras desencedeiam emoções tão contraditórias. O livro tinha acabado e as personagens tão queridas para quem havíamos dedicado tanto do nosso tempo e com as quais partilháramos risos e lágrimas de pronto se calavam, deixando um vazio e uma dolorosa saudade. Marcel Proust diz em  Sobre a leitura: "Bem gostaríamos que o livro continuasse, e, se fosse impossível obter outras informações sobre todas essas personagens, saber agora qualquer coisa da sua vida, empregar a nossa em coisas que não fossem completamente estranhas ao amor que elas tinham inspirado e cujo objeto nos fazia subitamente falta, não ter amado em vão(...)". Os sentimentos despertados, porém, acompanharão nosso destino. Nosso entendimento do mundo fora afetado, tornara-se ainda mais abrangente, assim como a nossa capacidade de amar.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Food for thought VIII

    
   "A poesia, pela ruptura que produz, pela tensão insustentável que cria, só pode desejar a ruína da linguagem,mas esta ruina é a única chance que ela tem de se realizar, de se tornar completa, às claras, sob os dois aspectos, sentido e forma, sem os quais é apenas longínquo esforço em direção a si mesma." (Maurice Blanchot em A parte do fogo).


          O paradoxo que a poesia traz -  a ruptura que  constrói; a ruína que busca erigir; o impacto que acalma.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

as ruas do Porto III

                         O esplendor das luxuosas montras da Rua de Santa Catarina reflete-se no chão de pedras onde o trânsito de turistas se intensifica a cada hora. O azul do céu,o frescor da manhã e a curiosidade natural de visitante são os ingredientes perfeitos para as passadas lentas.
                         Muitos são também os trabalhadores que expõem os produtos no chão ou em pequenas tendas na rua. O ruído é impressionante, acrescido do frenético ir e vir nos cafés.
                        Lembro-me aqui das Mariposas de luxo de João do Rio - as moças empregadas em fábricas que, no final do expediente diário, por alguns minutos, admiravam, desacelerando o passo, as ricas montras do centro do Rio de Janeiro do século XIX. O êxtase advindo da visão de tanta beleza só se extinguia diante da insistente lembrança da necessidade do controle no horário do transporte de volta à casa.
                       A nostalgia toma conta de mim. O mundo mudou e é o mesmo. Nosso interior, não. Este se renova a cada experiência. As ruas visitadas escrevem e reescrevem os textos da minha vida. Elas também falam de mim.

as ruas do Porto II

                  Acordo do sonho literário e já estou na Praça da Batalha, subindo a rua Cimo Vila, que acolhe uma das estações rodoviárias da cidade com simpatia. As pedras do chão estão mais gastas e  a opacidade toma o lugar do que já fora, por certo, só brilho nos anos idos. A atração, porém, persiste. Muitos passos ali deixaram marcas. Passos nativos e,muito mais, estrangeiros. Estranhos,mas ao mesmo tempo, moldando-se com perfeição ao asfalto receptivo. O movimento é frenético, acelerado e, ao intenso burburinho, mistura-se o ruído das rodinhas das malas tocando ritimadamente as pedras. Rua para estar na memória, disposta a aproveitar cada momento, evitando aflições e tensões.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Food for thought special

           "(...)que é o próprio homem senão um cego inseto inane a zumbir contra a janela fechada; instintivamente sente para além do vidro uma grande luz e calor. Mas, é cego e não pode vê-la, nem pode ver se algo se interpõe entre ele e a luz(...)Contudo, acredito que o homem de gênio, o poeta, de algum modo consegue atravessar o vidro para a luz do outro lado; sente calor e alegria(...). Fernando Pessoa, Livro do desassossego.

                Este homem de que primeiro fala Pessoa é aquele que se priva da beleza da existência e não aprecia e vibra com a força da palavra. Os eleitos aproveitam-se do calor de quem se sabe único.

Qual sua personagem favorita? II

O Rouxinol... O Rouxinol e a Rosa é um adorável conto infantil do querido Oscar Wilde. O pássaro tão cantado pelos poetas personifica um ve...